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Setembro Amarelo: falar de saúde mental é falar sobre a vida

Mesa de madeira ao ar livre com canecas de café, flores amarelas e cadeiras em um jardim, representando a convivência humana e a importância de falar sobre saúde mental.
  • 23 de setembro de 2026
  • |
  • CATEGORIA: Diálogos Necessários

O Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização e prevenção do suicídio que nos convida, todos os anos, a falar sobre um assunto que ainda é atravessado por muitos tabus: a saúde mental das pessoas.

Falar sobre suicídio é, também, falar sobre saúde mental. Mas será que, de fato, temos clareza sobre o que isso significa? O que de fato contribui para não termos saúde mental?

Atualmente, o termo saúde mental tem sido muito discutido, principalmente no âmbito corporativo. Mas, quando falamos de saúde mental em sua essência, estamos falando de algo muito maior, que envolve diversas camadas que, muitas vezes, permanecem invisibilizadas.

O bem-estar e a saúde mental de uma pessoa não dependem apenas de um equilíbrio psicológico e emocional. Eles também estão intimamente relacionados a outras condições fundamentais da existência humana, como os fatores físicos, a estrutura familiar, as condições de vida e, ainda, fatores externos, como os aspectos econômicos, sociais e ambientais.

Tenho refletido muito nos últimos dias sobre esse tema e, principalmente, sobre o que realmente chamamos de qualidade de vida.

Se considerarmos os desafios impostos pelo modelo de vida que vivemos atualmente como o próprio capitalismo exige, a alta produtividade, desempenho, velocidade e consumo, encontramos pessoas enfrentando jornadas exaustivas, muitas vezes com dupla ou até tripla jornada; longos trajetos no transporte público; mudanças nas formas de trabalho; responsabilidades pessoais e profissionais que se acumulam; e uma preocupação que, de alguma maneira, atravessa a vida de muitas pessoas: sobreviver.

No fim do dia, talvez o que muitas pessoas mais desejem seja simplesmente sobreviver — mas sobreviver com dignidade.

Ao longo da minha vida, aprendi que dinheiro não traz felicidade, mas pode trazer dignidade.

Dignidade para comprar um medicamento sem precisar calcular se o dinheiro vai faltar até o final do mês. Ir ao mercado e escolher aquilo que realmente quero, e não apenas o essencial. Comprar uma roupa antes que ela se torne uma necessidade. Ter momentos de lazer por escolha, e não apenas quando sobra dinheiro ou tempo.

Infelizmente, nos dias de hoje, falar sobre dignidade também significa falar sobre acesso a recursos financeiros. Não porque o dinheiro seja responsável pela nossa felicidade, mas porque as condições materiais de existência interferem diretamente na forma como vivemos, nos relacionamos e enfrentamos as adversidades. Por isso não podemos romantizar a falta de recursos e chamar isso de resiliência.

E todas essas questões atravessam, de alguma maneira, a saúde mental.

Outro ponto importante é que a forma como cada pessoa irá reagir diante das adversidades dependerá de diversos fatores, inclusive da estrutura psicológica que foi sendo construída ao longo de seu processo de desenvolvimento.

Cada pessoa percebe, sente e interpreta a vida de uma maneira singular. Por isso, uma situação que para alguém pode parecer banal, para outra pessoa pode ser vivenciada com uma enorme carga emocional. E é nessa diferenciação de visão de mundo que o suicídio entra em cena, quando as pessoas não conseguem enxergar mais saída em suas próprias vidas.

E talvez seja justamente por isso que falar sobre saúde mental exige que deixemos de olhar apenas para o indivíduo e passemos a olhar também para o contexto em que ele está inserido.

Porque o cerne da saúde mental é buscar diariamente o equilíbrio que cada um precisa. E não falo de um equilíbrio perfeito, porque acredito que ele não existe. Falo de um equilíbrio possível.

Um equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Entre responsabilidades e descanso. Entre aquilo que precisamos fazer e aquilo que desejamos fazer. Entre cuidar dos outros e também cuidar de nós mesmos.

E talvez esse seja um dos grandes desafios da humanidade: compreender que saúde mental não significa estar bem o tempo todo.

Significa também reconhecer os próprios limites, compreender a realidade em que estamos inseridos e encontrar, dentro das possibilidades de cada um, caminhos para continuar vivendo com mais consciência, cuidado e, principalmente, dignidade.

E talvez essa seja uma das grandes contribuições do Setembro Amarelo: nos lembrar que falar sobre saúde mental é, antes de tudo, falar sobre pessoas e sobre a vida real que vivemos e construímos todos os dias.


Sobre a autora e o movimento

Este artigo foi escrito por Beatriz Ramos Araújo (LinkedIn, Instagram), Psicóloga Clínica Bilíngue, especialmente para o movimento de valorização da vida idealizado pela Insight Editorial neste Setembro Amarelo. Acreditamos que dar espaço para conversas reais sobre saúde mental e dignidade é um passo fundamental para transformar realidades.

Convidamos você a continuar essa reflexão lendo os outros artigos do nosso movimento: O que acontece com o cérebro quando colocamos nossos pensamentos no papel?, escrito por Mag Brusarosco, e O custo emocional de empreender, escrito por Ewertton Gonzaga.

Para se aprofundar ainda mais, conheça também a nossa categoria especial de livros relacionada ao Setembro Amarelo no site e descubra as obras dos autores que fazem parte desta iniciativa de acolhimento e conscientização.

Mag Brusarosco
Mag Brusarosco | Coluna da editora-chefe Insight Editorial

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